"Numa noite, eu tive o pior pesadelo que alguém pode ter: era um pesadelo real, em que eu tinha livre arbítrio de fazer o que quisesse, mas apenas dentro das minhas capacidades humanas. Nesse pesadelo vi uma legião de amigos meus, amigos que eu tinha feito cair na minha teia de mentiras. Essa teia de mentiras, era onde as pessoas que eu tinha manipulado de formas inimaginavelmente maquiavélicas. Ao passar todos tinham caras tristes e abriam caminho para mim. Penso que estávamos
Neste outro sonho, vi-me como um herói, que era rápido e destemido, e que explorava mansões assombradas. Decidi nesse sonho ir explorar uma velha mansão da era medieval. Vi todas as divisões, e quando estava para sair, ocorre-me ir ver a biblioteca. Entrei lá, passo ante passo, naquela divisão escura e sombria. Examinei tudo. Nada de especial. Mas quando estava para sair, a lareira acendeu-se! Procurei manter a calma, e encontrar algum botão, que pudesse ter acendido a lareira, ou algo parecido. Em vez disso, encontrei um livro empoeirado, com histórias populares, medievais. Curioso, decidi dar uma espreitadela. Li que houve em tempos, uma nobre, uma grã-duquesa, muito conhecida na corte, que havia sido à morte, por alta-traição, ou seja por ter cometido adultério, acusação injusta. Na verdade, foi mais tarde apurado que havia sido apenas um pequeno barão, que lhe mandara uma carta, revelando o seu amor secreto. Mas sendo mau com as palavras escreveu coisas erradas, levando a duquesa a pensar que ele a desprezava. A duquesa, com medo de tornar aquilo um escândalo, mostrou-o apenas a dois seus amigos íntimos, que conheciam, estimavam, e até privavam com o barão. Mas uma aia metediça, acabou por contar ao grão-duque, que a sua mulher estava com dois homens, rapidamente forjando alguns detalhes. Assim a duquesa, bem como os seus dois amigos, foram condenados, ao cepo. Neste momento, eu enquanto, estava na biblioteca, vi-me naquele dia da execução. Vi o pobre barão a desesperar pelos seus entes queridos. Mas no momento final da duquesa vi na sua face um sorriso demente. Depois, saltou para dentro do altar, e disse aquilo que passo a citar: “Eu sou o culpado, e único culpado. Esta respeitável fidalga, nada teve a ver com a traição de que é acusada. Fui eu quem a enfeitiçou, com amuletos ciganos, a cometer adultério. Se querem um culpado, chamem o vosso rei, soltem-na e se assim entenderem levem-me a mim em vez dela.” Ao ouvir estas palavras a guarda, mandou chamar o rei. Soltaram a duquesa, mas em contrapartida, obrigaram-na a observar, a morte do seu salvador, que apregoou assim: “Vós podem matar a minha carne, levar o meu corpo despejado de vida. Mas rogo às entidades superiores, que vá alguém fazer um livro sobre esta minha morte, façam desse livro minha prisão eterna…”. Depois, com a mesma incredibilidade, retornei à mansão, naquela biblioteca sombria. Quis acabar a leitura, antes de abandonar aquele lugar. Vi que os relatos do destino da duquesa variavam. Alguns diziam que continuou a sua vida até ao dia em que se suicidou, três meses depois. Outros que foi para um convento, em busca de paz espiritual, e que só a encontrou, libertando o seu corpo de todo a infecção carnal. Ao terminar a leitura, corri o mais que pude da mansão. Quando olhei para trás já lá não havia nada, a não ser um cemitério. Voltei para trás, e vi que o livro, estava agora sozinho em cima de uma campa que dizia: “Aqui jaz o Amaldiçoado. Que a sua alma não mais tenha descanso”. Aí acordei de vez.
Espalharei com prazer a mensagem que este curto texto transmite. Dêem valor ao que têm, pois um dia, podem acordar para uma vida que não a que em tempos estimaram"
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A Beleza
Houve em tempos um homem. Era um homem sensível. Era um homem que amava o belo e o sublime. Era um homem que gostava do sol e da luz. Esse homem, no entanto, vivia longe de tudo o que amava, preso numa cela recôndita. Mas ainda assim, vivia feliz, sem nunca ter pensado nesses conceitos de beleza, de juventude, ou de estilo. Perdido e só, divagava nessa sua cela, como um insecto, se voz. Fazia dela o seu mundo inexplorado. Dormia numa cama de palha, o único objecto que se encontrava no quarto A cada dia, era a cela um lugar diferente, mais cheio de mistérios, e nunca em anos se havia cansado dela. Certo dia, explorou uma selva. No seguinte, o incansavelmente quente deserto africano. E todos os dias chegavam alguma comida e bebida, de algum mundo estranho. Sempre que ele via aqueles estranhos seres, saídos da porta, que ele pensava ser um portal, assustava-se, recolhendo-se a um canto escuro da cela. Outras vezes, tocava neles, fascinado com as suas roupas, com as suas caras, e com os seus estranhos dialectos.
Tudo correra bem até ali. O homem sobrevivera, apesar da sua inteligência reduzida, e da sua patética felicidade constante. Por isso os seres superiores deixaram a tranca da sua porta, que deixavam sempre fechada, aberta. E esperaram, que ele se apercebesse, que ao entrarem eles já não rodavam a pesada e enferrujada chave, mas apenas empurravam a porta. A princípio, ele não se apercebeu de nada. Estava demasiado ocupado com as suas fantasiosas peripécias. Mas com o tempo, ele foi prestando mais atenção aos homens que dele cuidavam. Certa vez, passou um dia inteiro sem nenhuma brincadeira das dele, apenas meditando. Os seres que dele cuidavam começaram a aperceber-se da mudança de atitude. E mesmo sendo cautelosos, aperceberam-se que agora estava na altura de lançar um ultimato ao homem: abrir-lhe-iam a porta, escancaradamente. Se ele saísse, então estaria pronto para enfrentar o “mundo real”. Caso não, então seria apenas um inadaptado, ao qual os seus cuidadores, prestariam muito menos atenção, e que acabaria por morrer na sua cela.
Chegara o dia. Foram-lhe dar o alimento, como sempre, mas “descuidando-se” deixaram a porta aberta. Para o júbilo dos seres, ele saiu. Ficou espantado, chocado, e como qualquer um faria, ao deparar-se com uma situação nova, ele fugiu. Mas foi na fuga, e ao puxar a porta, que se apercebeu da maçaneta que lá se encontrava. Era cor de bronze, talvez por causa da ferrugem. Logo se apercebeu que se tratava de alguma espécie de mecanismo, que o levava para aquele assustador mundo. Jurou para ele próprio que nunca voltaria lá.
Nos dias que se seguiram, voltou às suas aventuras na cela. Mas a maior parte das vezes, ficava aborrecido a meio da brincadeira, e sentava-se a um canto, pensando. Como seria viver na Terra, já tendo provado o Céu?... E foi numa tarde, depois de uma dessas aventuras falhadas, que ele voltou a sair. Uma vez mais ficou assustado, mas já não voltou tão cedo para dentro da cela. Primeiro, quis ver onde é que esta se encontrava em relação a tudo o resto. Viu que estava mais ou menos centrada no meio de algum estranho edifício. Aquele edifício parecia ser um local onde se dava passagem para muitas outras celas, entre elas, as dos seres que tomavam conta dele. Depois voltou a correr para a cela.
Finalmente o homem estava no ponto, ou assim pensavam os estranhos seres. Começaram a interagir com ele, a ensiná-lo a falar como eles, a agir como eles, a pensar como eles. Mas ouve um tópico que eles nunca mencionaram. O que era afinal a beleza? Ele questionava-se, vez e vez sem conta. Mas sempre que propunha esse como tema de debate, contra-propunham sempre um outro tema, um tema mais apropriado, ou assim diziam os seres, na realidade mais enfadonho, ainda que interessante, como a ética, ou o amor. Então, começaram a dar-lhe tudo o que ele precisava: uma cama de molas com um colchão decente; um armário, recheado de roupas, para que não tivesse que usar sempre as mesmas roupas sujas; uma estante, cheia de livros, que transmitiam a sabedoria dos seus antepassados (ainda que nenhum deles tratasse o tema da beleza). Houveram tantas outras coisas que lhe chamaram à atenção, e que lhe foi preciso explicar para que serviam. Desde fotografias, a um computador, tudo foi preciso ser muito bem explicadinho. Mas deixaram para o fim, aquilo que mais o fascinou. Três objectos, para os seres tão simples, mas que fizeram o delírio do homem. Um espelho, para que visse quem realmente era. Uma máscara, que lhe cobria todo o rosto, para as suas brincadeiras. E um longo robe, com uma faca, para que se defendesse de quem lhe quisesse fazer mal.
Depois de todas aquelas explicações, que demoraram anos, ele voltou a sair. Claro que nesse tempo já tinha saído algumas vezes. Chegou até a sair pelo maior dos portais, umas quantas vezes. Mas desta vez, saía com intenção de não voltar. Agora procurava uma cela maior, mais espaçosa, onde ele pudesse viver em grande. Acabou por encontrar uma, onde se instalou. Mas sentia ainda que algo faltava na sua vida. Começou então a olhar para a máscara branca, à procura de respostas. Usou-a, uma vez, e apenas para se entreter. Apercebeu-se que adorou a experiência, e começou a usá-la mais vezes. Certa vez, foi passear. Esperava um grande choque pela parte dos transeuntes. Talvez até alguns risos, ou algumas bocas. A realidade, era que ele adorava atenção, derivasse de onde derivasse. Mas curiosamente, ninguém parecia estranhar. Isso tornava tudo muito mais interessante. Olhou meticulosamente cada um dos transeuntes. E foi com espanto, senão terror que viu que todos usavam máscaras, de diferentes formas e feitios, apenas com uma coisa em comum: todas brancas cor da cal.
Ficou confuso. Não era suposto que as pessoas assumissem a sua própria cara? Não era suposto que todos fossem diferentes? Mas todos o eram…No entanto todos iguais num ponto! Foi lavar a cara. O espelho estava por cima do lavatório. Quando levantou a cara, para procurar uma toalha, ficou chocado. A sua própria cara, era abominável! Correu a procurar a máscara, e pô-la. Sentiu-se muito mais descansado, e viu que já não sentia temor, quando aquele artificio se encontrava na sua cara.
Começou a aprender, pela voz da experiência, como modificar a máscara, para mostrar não só o ar austero que normalmente mostrava, mas também felicidade, tristeza, interesse. O que começara por ser um divertimento, rápido se tornou uma obsessão. Não tolerava que alguém o rejeitasse, sentia-se nervoso quando alguém tinha uma expressão para ele desconhecida, os seus sentimentos acompanhavam os seus nervos, ambos à flor da pele. Por vezes, tentava em vão recordar-se da sua face, e viu que não conseguia. Isso nunca o incomodou. Mas ouve uma noite, em que uma rapariga pôs um olhar que ele nunca havia visto antes. Era quase como se ela se sentisse atraída por o homem, ao mesmo tempo o odiava, e oficialmente só queria ser amiga dele. Isto irritou-o solenemente. E ao tentar lembrar-se da sua cara antes da máscara, e não conseguindo, decidiu que iria tirar a máscara. Tirou-a em frente ao espelho. O sentimento de antes, o pavor à sua própria cara, era agora pouco para expressar o que ele sentia. Ele sentiu uma repulsa, um nojo, um ódio, uma raiva àquela sua cara, que pegou num candeeiro que iluminava a sala de estar, e bateu com ele no espelho. O espelho estilhaçou apenas, fazendo com que a sua face aparecesse ainda mais vezes. Ainda mais consumido pela raiva, bateu uma e outra vez no espelho. No fim, nada mais restavam que simples estilhaços de espelho.
A vida tinha atingido agora o seu apogeu para o homem. Encontrara uma mulher jovem, com quem tinha tido uma jovem filha, e para a qual arranjou uma cela. Já tinha acalmado o fervor louco da sua mocidade. Então, esperava que tudo corresse bem dali para a frente. Mas assim não foi. Veio um revolucionário. Este veio das terras do norte, onde o frio não permite que se usem máscaras. Este ameaçava arrancar as máscaras de toda a gente, se estes não as tirassem primeiro. Havia rumores de alguns, cuja máscara havia sido desfeita. O homem não podia tolerar isto. Não outra vez! Abandonou tudo e todos, e foi fugindo, rua a cima. Por capricho do destino, foi encontrar aquele mesmo revolucionário, a passar calmamente na rua. Era meia-noite. Não se via vivalma na rua. Só ele e o revolucionário.
Travou-se uma luta desesperada, o homem a lutar pela sua máscara, e o revolucionário em busca de a arrancar. Foi num golpe final, que este último a dividiu em duas partes. O homem não podia acreditar. Escondeu as suas faces, mas o revolucionário disse-lhe:
-Quero ver, quão feia é essa cara, para a quereres esconder com tanto ardor! Mostra-ma! Não me vires a cara, mostra-ma!
No fim, ele acabou por desistir, e mostrou a sua cara. Era ainda um jovem, nos seus 25 anos. A sua pele, branca, quase como a da máscara, pois em tantos anos, nunca apanhara sol. Os seus olhos, um pouco amendoados, eram azuis. Tinha uns cabelos ruivos, lisos, compridos e sedosos, pois o homem tinha um grande zelo pelo seu cabelo. A sua pele, era digna de inveja. Nem uma ruga que se visse. As suas orelhas, a sua testa, as suas pestanas, os seus lábios…todos pareciam esculpidos por um mestre escultor.
Apesar da sua jovem idade, achou desde logo que a sua vida acabara. Correu para casa, num choro desmedido. Pôs-se junto ao lavatório, onde antes existira um espelho. Ao olhar à sua volta, só procurava o que fazer. Então lembrou-se do robe preto. Pôs o robe, como um traje cerimonial, pegou na faca, e no momento em que se preparava para fazer a lâmina conhecer o doce sabor do seu pescoço…uma figura apareceu. Esta estava encoberta por um longo manto do mais negro possível. Trazia atrás toda uma longa fila de figuras, sem máscara. Ele sentiu que a única coisa a fazer seria seguir a figura misteriosa. No entanto, um pensamento atormentava-o: “Porque sou eu horroroso, todos eles tão belos, e no entanto corremos pelo mesmo caminho?...”
Ass:E.U Atmard

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