"Faz já algum tempo, encontrei um rapaz, à porta de uma escola, que dizia que queria apenas saltar dez anos no tempo, saltar todas as desavenças da adolescência, e acordar um dia, com uma vida estável e adulta, uma mulher e um filho ainda pequeno. Ao ouvir isto, e percebendo que aquele não era um pedido razoável, decidi contar-lhe uma história: a história de um jovem que como ele ansiava que os dias passassem. Era um jovem sem amor-próprio, sem qualquer interesse na vida actual, sem trabalho, sem querer aprender. Ele não se interessava em sair, nem queria tão pouco grandes reuniões. Não tinha namorada, nem sequer gostava de alguém. Este rapaz, para que conste, não era apático, nem tão pouco sofria alguma outra doença. Não este jovem era muitíssimo saudável. Ele era daquele tipo de pessoa que prefere ignorar tudo e todos. A única coisa que ele estimava fazer, era projectos, era previsões. Aos 16 anos já tinha tudo pronto para os seus 60. Mas ele esqueceu-se que tudo tem que ter um começo, e com o passar dos anos, foi-se afundando mais e mais. Ele esperava vir a descobrir a nova pólvora ou a reinventar a penicilina. Mas não poderia, visto não ter o mais mínimo interesse em aulas de ciências. Também queria escrever obras como “A Odisseia” ou “David Copperfield”, mas dava tantos erros a escrever, que até as canetas tinham medo dele. Queria também ser compositor como Ludwig van Beethoven ou Wolfgang Amadeus Mozart , mas quando ouvia uma sirene dizia ser música angelical Chegado o fim da escola, procurou emprego? Claro que não. Foi preciso que os pais, com quem ainda vivia, lhe arranjassem um emprego humilde numa fábrica, a fazer a verificação de produtos. Mas mesmo assim ele continuava a sonhar alto. Tão alto que quase tocava o céu.
Com 40 anos feitos, já não sendo verificador de produtos, mas sim sub-verificador, pois foi despromovido, após ter deixado uma televisão como o ecrã rachado passar. Ainda assim achava que um dia seria actor na Broadway, que veria a sua cara em todos os posters. Nem sequer uma vez discursou em frente ao espelho. Ele esperava sempre pelo dia seguinte, porque achava que o dia seguinte lhe havia de trazer, aquilo que no dia de hoje ele ainda não tinha. Durante mais dez anos tudo continuou bem. Até que os seus pais morreram, deixando a casa, não a ele, mas ao seu irmão, um homem com os pés na terra, médico conceituado, e homem de família. Este seu irmão ainda lhe sugeriu que ele viesse viver com eles, mas após várias perguntas sem qualquer resposta, virou-lhe as costas.
Com cinquenta anos de idade, foi viver para o asilo dos pobres. Muitos foram os que o tentaram incentivar a continuar a viver, a esquecer o passado, por pensarem que ele não queria esquecer os acontecimentos que o antecediam. Mas estava claro que o seu mal era outro. Ele não queria abandonar os seus projectos. Para ele só faltavam dez anos para concretizar o seu verdadeiro sonho: ser o primeiro homem
Com os seus setenta anos de idade, mais morto que vivo, dirigiu-se para casa do irmão para lhe ir dizer um último adeus. Mas quando lá chegou, viu a casa vazia. Leu num diário que havia sido deixado para trás, que o seu irmão morrera quinze anos antes. Leu, com o pouco que sabia de ler, que sua morte havia sido em parte por remorso de não saber onde estava o seu querido irmão, que por muito lunático que fosse não merecia morrer na ruína. Leu que a família do seu irmão se havia mudado. Leu que todas as pessoas que ele alguma vez conhecera estavam todas mortas. Depois o tempo parou. Tudo parou e uma estranha e sumptuosa figura, supostamente um anjo apareceu-lhe e perguntou-lhe: “Se pudesses mudar uma coisa na tua vida, qual teria sido?” parece-nos óbvia a resposta mas o que ele respondeu foi: “Não ter vindo a casa do meu irmão mais cedo. É que se tivesse vindo mais cedo ainda lhe podia pedir uns trocos emprestados, para um café. É que hoje é o meu aniversário…”
Ao acabar de ouvir esta história o jovem em frente à escola parou como se eu tivesse dito algo de blasfemo. Pus-lhe a mão no ombro e disse-lhe estas palavras que não me canso de repetir: “Vive cada momento mais leve que um pensamento, porque não há outro igual”. Ele olhou-me nos olhos, esboçou um sorriso puro e belo, e foi a correr viver a sua vida."
Ass: E.U Atmard

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